ANGÚSTIA MODERNA
Estou aqui na estação chuvosa
Com essa nova angústia bem posta
Uma angústia moderna que tem banda larga na Internet
E assina 356 canais a cabo
Pra descobrir que pouco há pra se ver
Estou aqui na estação chuvosa, fora de época
Radiofônica com válvulas
Telefônica, sem fio
Com uma angústia de arrepio
Que não promove gritaria e
Não segue micareta
É crônica da angústia disfarçada
Pois aflição em hora errada
Ela perde o horário de pico
O filme da moda
O livro do ano
Penso que angústia da solidão
Quando se faz a descoberta
Que somos sós apesar de acompanhados
Tem muita gente que te segue
E você não é novela
Mas eu sigo a estação que chove
E acolhe no bojo d’água
O tempo que passa entre os dedos
Nele os meus cabelos não clareiam mais
Não consigo voltar atrás nos lances dados
Há tantos caminhos errados
Que sinto um estrangeiro em mim mesmo
Me asilo de mim dentro da cidade
Visto que o campo é vasto
E o vento é frio
Do alto do canyon que visitei
Muitos mares não avistei
Pois as ondas da angústia moderna
Não ultrapassam meus arrecifes
Confessional forasteiro
Me dou conta da hora errada
Do filme que peguei no meio
Da palavra escrita que emiti fora do eixo
A estação é chuvosa e eu bato o queixo
A pista escorrega , os pneus são lisos
A angústia é uma boca sem os sisos
Mas todos eles doem
Como fantasmas abcessos...
***
Ricardo Soares